A copa dos assédios

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A copa dos assédios

O clima da Copa do Mundo é realmente empolgante. As cidades e as pessoas ficam diferentes. O sentimento de pertencimento à nação aumenta de tal forma que as pessoas passam a expressá-lo desfilando pelas ruas vestidas com camisas nas cores verde e amarela. E isso acontece no mundo inteiro.

Cada torneio tem uma peculiaridade, algo que o marca para sempre. O Mundial da Rússia será lembrado pelas zebras (quem imaginaria Croácia na final?), o árbitro de vídeo e pelo assédio às mulheres. Elas só queriam curtir ou trabalhar livremente, mas foram impedidas por homens alterados e sem noção, que não contavam que suas imagens fossem viralizadas para que todos pudessem ver.

Foi um comportamento vergonhoso. Iremos sempre nos lembrar dos torcedores brasileiros gravando um vídeo com uma mulher russa em que a faziam repetir frases depreciativas. Ela queria apenas ser gentil e recepcioná-los da melhor forma em seu país.

Jornalistas mulheres que cobriam o evento pelas ruas também sofreram com esse tipo de agressão. Algumas foram beijadas enquanto faziam link ao vivo nos programas de TV. Foi o caso da repórter da TV Globo Júlia Guimarães. Imediatamente, ela o desautorizou e reagiu com palavras. “Isso não é educado, não é certo. Nunca faça isso! Nunca faça isso com uma mulher. Respeito!”, pediu a jornalista. Era a segunda vez que Júlia sofria assédio de torcedores na cobertura da Copa.

Já a jornalista mexicana Mariana Zacarías foi vítima de agressões sexistas três vezes em apenas 15 dias. Na primeira vez, um homem tentou beijá-la à força, enquanto se preparava para uma intervenção diante da câmera. Durante outro “ao vivo”, um homem apertou seu glúteo e, mais uma vez, foi agarrada por um desconhecido. “É incômodo, ofensivo e não deve passar. Afinal, estamos trabalhando e precisa haver respeito, seja mulher ou homem, merece igual”, denunciou ela à AFP.

Esse assédio foi comprovado por um levantamento divulgado pela ONG Fare, instituição ligada à Fifa. Segundo os dados, o que chamou a atenção foi o sexismo, principalmente com as mulheres russas. Foram documentados 45 casos de mulheres vítimas de sexismo e assédio – 30 torcedoras e 15 jornalistas, mas acreditam que o número pode ter sido 10 vezes maior. Alguns torcedores tiveram o Fan ID (registro obrigatório para torcedores na Copa) suspenso, o que significa que não poderiam mais ingressar nos estádios, mas a Fifa não informou esse número.

Coincidência ou não, o movimento #MeToo pode ter favorecido o combate às agressões sexistas, já que cada vez mais mulheres denunciam gestos que até agora eram guardados em silêncio ou banalizados como inevitáveis em eventos deste tipo. O fato é que as agressões sexuais vão além do Mundial e do movimento #MeToo, podem ser vistas hoje como uma campanha por direitos elementares e limites pessoais para todos. As denúncias ajudarão a mudar a cultura.

 

*Eliane Mendonça é Diretora de contas da Contextual Comunicação

By | 2018-07-17T16:26:58+00:00 julho 17th, 2018|Blog|0 Comments

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